Claudio Manoel’s Weblog

Fevereiro 26, 2009

O KRATFWERK E NÓS

Arquivado em: dj, música eletrônica — claudiomanoel @ 11:43 am
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kraftwerk2

Por Cláudio Manoel (Pragatecno)

Nós temos a referência do surgimento da música eletrônica com Kraftwerk, nos anos 70. Mas isso é um equívoco. As primeiras experiências de música e tecnologias datam de 1860, ainda, com as pesquisas do alemão Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz, que inventa o Helmholtz Resonator. Depois disso surgem vários equipamentos e produtores, dentre ele o Theremin, em 1917, na Russia. Com o surgimento da informática nos anos 50, há uma experiência interessante na academia que é a Eletroacústica, também na Alemanha, com Stockhausen à frente, associando timbres acústicos, com tecnologias eletrônicas e digitais. O Kraftwerk aparece 20 anos depois, nos anos 70, como resultado de tudo isso. Mas – fundamentalmente – dando uma conceituação pop à música produzida através de máquinas digitais, eletrônicas e tendo os sintetizadores como principais instrumentos. O Kraftwerk é considerado o inventor da música techno, ou tecnológica, mas eles são mais que isso. São a principal expressão estética da conexão entre música, tecnologias e cena musical – ou seja, uma música que gera uma cultura do entorno, reunindo fans, selos, promoters, eventos, mídias, estúdios e técnicos, cultura do dj, um complexo que sai da mera experiência laboratorial e toma as ruas, como uma expressão. Arte massiva. Música para ser consumida. Foram eles que estabeleceram todos os conceitos da cena eletrônica de produção, circulação e consumo, baseado em uma música sintética, samples e idéias.
Fundado por Florian Schneider e Ralf Hütter em 1970, o grupo quase sempre sobe ao palco com 4 pessoas, há quase 40 anos, tocando seus clássicos que estabeleceram o conceito de prototechno (modelo de techno), que ao longo dos anos inspira e faz surgir os subgêneros da música eletrônica, como o techno, a house, a ambient, o trance, o electro, o minimal, o break beat… É bom lembrar que o inventor do primeiro electro é o Kraftwerk, com a música Numbers, há mais de 30 anos; é bom lembrar que o Minimal tocado hoje já vinha sendo feito por eles há mais de 30 anos; ou que beats e samples que a nossa MPB passou a usar (no início com muito preconceito) é a base da produção da música eletrônica, proposta pelo Kraftwerk. Sim, devemos muito a eles, que continuam, já entrando na terceira idade e subindo nos palcos, trazendo o som eternamente à frente. Para saber mais sobre o grupo, sugiro o site oficial do grupo em http://www.kraftwerk.com e tem também o ótimo site de fans brasileiros em http://kraftwerk.technopop.com.br

Novembro 26, 2008

Blog sobre Cultura Digital na Bahia

Arquivado em: Uncategorized — claudiomanoel @ 2:50 pm

Blog sobre Cultura Digital na Bahia

http://digitalbahia.wordpress.com

Novembro 7, 2008

CULTURA DIGITAL BAHIA

Arquivado em: cibercultura, tecnologia — claudiomanoel @ 11:14 am

CULTURA DIGITAL BAHIA

Este é um blog informal da Assessoria de Cultura Digital da Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia, mantido para adendar informações sobre atividades em torno da cultura digital na Bahia (e Brasil), com a participação de usuários em comentários, sugestões de adendos e criação de uma comunidade interessada nos temas soft livre, cultura livre, arte e tecnologia, cultura e tecnologia, cibercultura, cultura digital, informação e redes. Colaboradores: Cláudio Manoel Duarte, Cleide Vilela Craw e Maurício Lídio. 

http://digitalbahia.wordpress.com


Agosto 8, 2008

Global Voice

Arquivado em: cibercultura, jornalismo — claudiomanoel @ 5:54 am

O Global Voice

É um dos grandes projetos de jornalismo mundial atraves de ONG/jornalismo cidadao na internet.
http://pt.globalvoicesonline.org
consiste no busca de noticias de última hora de repercussao internacional, escritas e traduzidas em várias línguas -
Coloquei ai o link em portugues.
uma das redatoras é Paula Goes, jornalista baiana, residente em Londres, que tem estado à frente na equipe detradutores.
“Global Voices Online é uma iniciativa sem fins lucrativos do projeto “global citizens’ media” criado pelo
Centro Berkman para Internet e Sociedade da Escola de Direito de Harvard, uma incubadora de pesquisa focada no impacto da Internet na sociedade.

Abril 25, 2008

Faculdades Jorge Amado discute comunicação sem fio no Ciber.Comunica 3.0

Arquivado em: cibercultura, novas mídias, tecnologia — claudiomanoel @ 7:38 pm

Bluetooth, wi-fi, mobile comunication, infrared, etiquetas RFID. Se esses termos ainda não fazem parte do seu vocabulário, isso vai mudar depois do Ciber.Comunica 3.0, promovido pela Jorge Amado nos dias 13, 14 e 15 de maio. Essa é a terceira edição do evento, que tem como objetivo discutir a comunicação associada às tecnologias contemporâneas. 

 

Nessa edição, a discussão do Ciber.Comunica girará em torno da Comunicação Sem Fio, envolvendo os cursos de Jornalismo, Rádio e  TV, Publicidade e Propaganda, Redes de Computadores e Sistemas de Informação. O evento é uma iniciativa da coordenação dos cursos de Comunicação Social da Jorge Amado, em parceria com o Atelier de Comunicação e Cultura (GERCOM), o Centro Internacional de Pesquisa em Cibercultura da Facom/UFBA e o Centro de Excelência da Informação (CEI / A Tarde).

 

Apesar do tema atualíssimo, o Ciber.Comunica continua com os mesmos moldes. É o que garante o seu coordenador geral, o professor mestre Claudio Manoel Duarte. Segundo ele, o tema pode englobar palestras sobre software livre, open source journalism, autoria, propaganda e marketing viral livre, produção e publicações coletivas a distância, educação a distância, bluetooth e informação, censura e rede, publicação literária em rede, creative commons, dentre outros. “O que motiva o Ciber.Comunica é o acompanhamento dos uso das tecnologias nas variadas formas de comunicar”, justifica o professor.

 

O evento, que pretende inserir os estudantes da Jorge Amado na discussão sobre comunicação, informação e tecnologias contemporâneas, já tem alguns nomes confirmados. A palestra de abertura fica por conta do publicitário e mestrando Adelino Mont’Alverne, que fala sobre Comunicação, tecnologia móvel e publicidade. A palestra da professora Karla Brunet traz o tema Arte, tecnologia móvel e apropriação para o centro do debate, no dia 14, às 9h30. No dia seguinte, às 19h, o professor Fernando Firmino da Silva fala sobre Jornalismo e mobilidade.

 

Microfilme

 

Dentro da programação do Ciber.Comunica, acontecerá ainda o MICROMÍNIMA – Festival FJA de filmes-celular, onde alunos das disciplinas de Novas Mídias I e II exibirão seus microfilmes gerados a partir de celular, com duração de 1 minuto a 1 minuto e 15 segundos, com linguagem e tema variados. O festival é organizado pelos professores-mestres Macello Medeiros e Cláudio Manoel Duarte.

 

O público-alvo é formado por alunos, professores e profissionais de comunicação, mas é importante ressaltar que o evento é aberto ao público geral. Os interessados em participar devem apenas contribuir, no ato da inscrição, com um quilo de alimento não-perecível, a ser entregue na sala do Núcleo de Ação Social da Jorge Amado, que fica localizada no Prédio I, Nível 9. Os alimentos arrecadados serão distribuídos a uma das entidades filantrópicas apoiadas em projetos sociais da instituição, a ser definida por sorteio. O participante terá direito a certificado. Inscrições de 4 a 12 de maio.

 

Confira a programação completa do Ciber.Comunica 3.0 no site da Jorge Amado www.fja.edu.br ou no blog http://cibercomunicafja.wordpress.com

Abril 11, 2008

O movimento social da cibercultura

Arquivado em: cibercultura — claudiomanoel @ 1:49 pm

Resenha sobre os capítulo VII – “O movimento social da cibercultura”- de Pierre Lévy no livro CIBERCULTURA (Editora 34, São Paulo, 1999).

Cláudio Manoel Duarte*

Neste capítulo Lévy defende que a emergência do ciberespaço é fruto do movimento social, e esse movimento está baseado na interconexão, nas comunidades virtuais e na inteligência coletiva. Lévy quer provar que a utilização ou a criação/desenvolvimento da técnica é fruto do desejo. “O desejo é o motor”, afirma; que a técnica é também resultante de um movimento social – que a resignifica.

Ele cita o exemplo do veículo automotivo. Para ele, não é possível atribuir unicamente à indústria automotiva e às multinacionais do petróleo o impressionante desenvolvimento do automóvel individual neste século, inclusive com toda sua repercussão sobre o urbanismo (as cidades são projetadas baseadas em vias para o veículo): “o automóvel respondeu a uma imensa necessidade de autonomia e potência individual”. Lévy quer dizer com isso que – se o desejo é o motor – o desejo é anterior às formas econômicas e institucionais. O desejo – esse movimento abstrato que molda a máquina e/ou o seu uso – é a essência de uma forma, como defende – num paralelo – Gilbert Simondon[1].

Para Simondon é a essência (novo valor diretriz) que motiva a criação do novo objeto técnico (máquina) a partir das conexões anteriores que teve uma de suas funções salientadas; e que são os esquemas mentais que se intercruzam e salientam um determinado esquema que vai não só anular outros como fazer surgir um esquema mental novo, uma nova essência. Simondon chama essa essência de o receptador dos dinamismo, por que é a essência que porta, que carrega a forma. “As formas não participam às formas – afirma ele – mas à essência”. Ele acredita que a essência, aquilo capaz de gerar o movimento, aquilo capaz de definir formas, aquilo capaz de gerar forças, é um sistema de energias que caminham, enquanto as formas são os sistemas de “atualidade”, do existente, do que é visível. Simondon coloca que não é a forma que induz, mas é essência. Poderíamos pensar o movimento social de Lévy como essa essência que molda.

Um segundo exemplo dado por Lévy para mostrar que o que “dispara” não reside na técnica é o uso dos correios, através da história: um sistema de comunicação – uma infra-estrutura, uma técnica – onde a sua essência original era, durante a China da Antigüidade, baseada na troca de informações governamentais usando-se os cavalos, como meios de transportes, para as informações que eram levadas de posto a posto. No século XVII, os correios sofrem uma alteração da técnica com distribuição de cartas ponto a ponto (pessoa a pessoa) resultante de um movimento social ligado intimamente à ascensão das idéias de liberdade de expressão: o “disparo” aconteceu pelas novas idéias (literatura, filosofia, cartas de amor) alterando o uso da (quase) mesma técnica. Para Lévy, uma infra-estrutura de comunicação pode ser investida por uma corrente cultural que vai, no mesmo movimento, transformar seu significado social e estimular sua evolução técnica e organizacional.

O autor quer propor, com esses dois exemplos, que o ciberespaço (técnicas) é fruto de um movimento social (corrente cultural) para que possamos pensar o mesmo “não como uma infra-estrutura técnica particular de telecomunicações, (mas) como uma certa forma de usar”, uma certa forma de apropriação das infra-estruturas existentes. Ele retoma os californianos em sua luta Computers for the people que queriam colocar a informática nas mãos dos cidadãos fora das grandes corporações: “o significado social da informática foi completamente transformado”.

Assim como a correspondência de pessoa a pessoa fez surgir o verdadeiro uso dos correios, o movimento social que vem desde os californianos dos anos 70 até o cidadão comum conectado, anônimo, nas redes telemáticas, dão o verdadeiro sentido ao ciberespaço como prática de comunicação interativa, muito além dos objetivos bélicos da origem dessas redes, particularmente da internet.

Pierre Lévy estabelece 3 bases que sustentam o que ele chama de movimento social da cibercultura: a interconexão, as comunidades virtuais e a inteligência coletiva.

A interconexão é a própria explicação até mesmo material, física, para a existência do ciberespaço: máquinas de comunicação de toda ordem interligadas criam uma ambiência – o próprio ciberespaço – para um segundo tipo de conexão: a das idéias, que por sua vez se concentram em grupos, tribos, em comunidades virtuais. “A interconexão constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras”, afirma Lévy”. “Tece um universo por contato”.

É óbvio é as comunidades virtuais se estabelecem a partir da primeira base, da interconexão. Estabelecida a partir da afinidade de interesses, essas comunidades processam a cooperação através da troca de informações que a consolidam enquanto grupo, independente de proximidades geográficas. Longe de serem frias, as relações sociais dessas comunidades através do ciberespaço são carregadas de emoções e até flames (discussões acaloradas, com ataques pessoais), marcando a presença sentimental de cada integrante, o que sugere que “nem a responsabilidade individual nem a opinião pública e seu julgamento desaparecem no ciberespaço”, como afirma Lévy. Informação e sentimento estão presentes numa comunidade virtual: ela não é irreal, é um coletivo que se utiliza de um suporte internacional para trocar informações e sedimentar sua opinião pública, gerando um movimento de idéias e, portanto, de intervenção social, dentro mesmo do ciberespaço e na cibercultura, já que a cibercultura – como afirma o autor – é a expressão da aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais e de poder, mas “sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns”, sobre processos abertos de cooperação, enfim. Lévy afirma que as comunidades virtuais são os motores do universo por contato.

Uma terceira base do movimento social da cibercultura é a inteligência coletiva. Trocar informações mais verticalizadas dentro de centros de interesse significa participar de um forum especializado, onde a circulação da informação (através da interconexão) aconteça de forma mais rápida e centrada (por meio das comunidades virtuais): um coletivo inteligente. A inteligência coletiva seria, portanto, um resultado, um resultante de uma pequena comunidade virtual temática (lista de discussão…) ou poderíamos pensá-la como a contribuição de idéias de toda a comunidade conectada ao ciberespaço. Em qualquer uma dessas esferas o problema que se coloca é o ordenamento das pequenas contribuições de informação? Como organizar – é preciso? – o mega-cérebro constituído de intervenções individuais, fragmentadas, fractais tendo em vista o estabelecimento de uma lógica inteligente – ou de uma inteligência lógica?

Fora da interconexão e de uma comunidade virtual, somos, cada um de nós, um elemento contribuinte com o inconsciente coletivo – um movimento etéreo, invisível, intuitivo e não cerebral. No ciberespaço – local de celebração do cérebro – nosso coletivo é (mais) consciente, inteligente e mais visível. Será? Essa massa de informação que imaginamos consistente é tão desordenada e caótica – sem lógicas, nem mesmo intuitivas - apoiadas em bits e tomadas desplugáveis que nossa contribuição factal é pouco ordenadora, direcionadora – mesmo nos sabendo inteligentes, cheios de opiniões, cerebrais e defensores em flames de nosso ponto de vista.

Que ponto de vista?

O ciberespaço e sua cultura caminham para todos os pólos. É uma massa de sons, textos, links perfeitos e quebrados, imagens fixas e em movimento – uma massa binária transportada num vai-e-vem por quem queira manipulá-la de um hard disk a outro ou transformá-la em algo novo, ou deletá-la. Falta aí um projeto? Um propósito? Uma quarta base que sustentasse um sentido para a interconexão, a comunidade virtual e inteligência coletiva?

Pierre Lévy acredita que a cibercultura é assim mesmo, sem projeto, sem objetivo nem conteúdo; onde nada que a compõe (comunidades virtuais, inteligência coletiva e interconexão) significa um programa político ou cultural no sentido clássico. “O programa da cibercultura é o universal sem totalidade”, defende ele. Por trás da cibercultura, por trás das comunidades virtuais, inteligência coletiva e interconexão estão como essências, como valores motrizes, a autonomia e a abertura para a alteridade – essas essências são, elas mesmas, o que determina a emergência do ciberespaço, da cibercultura.

*Cláudio Manoel (ou Cláudio M.) é jornalista de formação, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, professor das Faculdades Jorge Amado, fundador e dj do grupo de música eletrônica Pragatecno, sub-editor da publicação 404nOtF0und.


[1] Ver o capítulo II (“Evolución de la réalité tecnique ; élément, individu, ensemble”) da obra “Do Modo de Existência dos Objetos Técnicos”, de autoria de Gilbert Simondon.

O ciberespaço, a cidade e a democracia eletrônica

Arquivado em: cibercultura, novas mídias — claudiomanoel @ 1:47 pm

Cláudio Manoel Duarte*

Resenha sobre o capítulos XIII – “O ciberespaço, a cidade e a democracia eletrônica” – de Pierre Lévy no livro CIBERCULTURA (Editora 34, São Paulo, 1999).

Neste capítulo, Pierre Lévy questiona em que níveis o desenvolvimento do ciberespaço afeta o espaço urbano.

O autor inicia sua discussão falando que as maiores adesões ao ciberespaço estão diretamente relacionadas aos espaços metropolitanos. E pergunta se o desenvolvimento desse ciberespaço ocasionaria, por outro lado, uma descentralização desses espaços metropolitanos. Se, enfim, o ciberespaço fomenta uma democracia, uma democracia eletrônica, valorizando as competências locais na troca de experiências.

Ele acredita que uma política voluntarista colocaria o ciberespaço a serviço de regiões menos desenvolvidas e serviria como um novo instrumental decisório para a população. “A verdadeira democracia consiste em encorajar (…) a expressão e a elaboração dos problemas das cidades pelos próprios cidadãos (…)”, afirma.

É quando Lévy enumera e discute alguns itens na relação cidade-ciberespaço. O primeiro deles é a analogia feita entre as comunidades virtuais e territoriais. Usando o exemplo da cidade virtual de Amsterdã, onde as informações sobre os serviços territoriais são colocados na net e também a comunidade encontra espaços de interatividade, Pierre Lévy afirma que são dois os motivos que mantém esse projeto: sensibilizar os dirigentes para as novas possibilidades das redes de conectividade; e dar “acesso a todos”, num esforço de compensação dos desequilíbrios entre ricos e pobres.

Lévy acha no entanto que essa relação cidade-ciberespaço é mal entendida. Às vezes funcionando apenas como uma versão representativa e não utilizando os reais recursos técnicos e de linguagem propiciados pelo ciberespaço. Cita o exemplo dos museus virtuais – “às vezes nada mais são do que catálogos ruins na Internet” – quando deveriam servir principalmente como espaços para maior interatividade e criação de obras coletivas.

No geral, o autor defende que o ciberespaço não pode ser mera duplicação das instituições (”formas institucionais”), sob o discurso de “acesso para todos”, mas valorizar e compartilhar a inteligência nas comunidades conectadas.

Ele também acredita que – eis um segundo item na relação cidade-ciberespaço – o ciberespaço não substitui (ou troca) as funções das cidades físicas pela telepresença. “Quanto mais nos comunicamos mais nos deslocamos”. Ele não nega a existência de teletrabalhos, mas o desenvolvimento das telecomunicações evolui paralelo a um desenvolvimento dos transportes físicos. “O ciberespaço é efetivamente um potente fator de desconcentração e de deslocalização, mas nem por isso elimina os centros”, afirma. Ele defende que, ao invés de uma efetiva substituição, o ciberespaço torna os intermediários obsoletos, por aumentar nossa capacidade de intervenção direta.

Um terceiro ponto levantado por Lévy é a assimilação do ciberespaço como aparelho que faz parte da infra-estrutura urbana clássica. Um equipamento que serviria como fonte de lucro, como uma “auto-estrada da informação”, assim como a tv a cabo. Essa idéia é equivocada, segundo o autor, pois mascara o verdadeiro conteúdo do ciberespaço: não um novo mercado ou uma nova infra-estrutura técnica, mas um mecanismo de interação, ou melhor uma forma de usar os mecanismo digitais já existentes. Um espaço para a comunicação transversal e hipertextual, a partir da interatividade e de uma nova forma de usar a tecnologia já existente. Pierre Lévy quer dizer que ao defenderem o ciberespaço como uma nova infra-estrutura (”auto-estrada da informação”) encobre-se aí o movimento social da cibercultura.

Mas de que forma se daria uma articulação entre a cidade e o ciberespaço? Esse é o quarto e último item observado pelo autor. Uma resposta. “Nem simples analogia, nem substituição, nem assimilação…”. Ele propõe pensar os dois espaços – qualitativamente diferentes – de forma articulada (”articulação”). O do território e o da inteligência coletiva. Acesso para todos, por exemplo, não deverá ser o acesso ao equipamento, mas a poderes decisórios. O ciberespaço deverá servir como eliminador da lentidão institucional, onde poderá haver colaboração coletiva e contínua dos problemas (da cidade) e sua solução também cooperativa e concreta. “Escolher a inteligência coletiva não requer apenas uma mudança de funcionamento da cidade (ou das instituições), implica também que se organizem funções do ciberespaço especialmente concebidas dentro dessa perspectiva”, defende. Lévy aponta algumas saídas, instâncias baseads principalmente na interatividade, como fóruns de avaliação e controle por parte da população.

* Cláudio Manoel (ou Cláudio M.) é jornalista de formação, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, professor das Faculdades Jorge Amado, fundador e dj do grupo de música eletrônica Pragatecno, sub-editor da publicação 404nOtF0und, moderador da comunidade virtual PragatecnoBrasil e produtor cultural.

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Março 15, 2008

404nOtF0und

404nOtF0und

cultura eletrônica contemporânea

 

404nOtF0und é uma publicação eletrônica internacional centrada nas particularidades da cultura eletrônica contemporânea. Mas não se trata de uma publicação acadêmica strictu sensu.

 

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ISSN 1676-2916

 

 

Corpo Editorial: Eugênio Trivinho (Brasil), Federico Casalegno (França), Arlindo Machado (Brasil), Dan Fleming (Irlanda), Philppe Dubois (França), Pedro Nunes (Brasil), Marcelo Bolshaw (Brasil), Antúlio Sanches (Mexico), Gottfried Stockinger (Brasil), Suely Fragoso (Brasil), Juremir Machado da Silva (Brasil), Marcos Palacios (Brasil). Paulo Vaz (Brasil), Alex Primo (Brasil), Simone Pereira de Sá (Brasil), Gilbertto Prado (Brasil), Francisco Coelho dos Santos (Brasil), Lenara Verle (Brasil), Edvaldo Couto (Brasil), Gil Maciel (Brasil), Mario Guimarães (Brasil), Nelson Pretto (Brasil), Will Straw (Canadá).

Dezembro 21, 2007

Música pop, e-music, mídia e estudos culturais

Arquivado em: estudos culturais, música eletrônica — claudiomanoel @ 1:09 am

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Cláudio Manoel Duarte

 Resumo:

O texto faz um percurso para identificar desde quando surgiu o interesse do cultural studies em pensar a música pop(ular), em detrimentos de estilos mais “clássicos”, discutindo que em torno desta música pop reside uma cena – um conjuntos de manifestações – e que essa cena gera novos comportamentos e construção de sentidos, inclusive na inter-relação entre mídia e subcultura

 

            Os estudos culturais desenvolvidos nos anos 80 e 90, com a “descoberta da subjetividade”, abriram efetivamente espaço para aplicação desses estudos às subculturas e à cultura jovem, com destaque para os temas da subjetividade, alteridade e diferença, as análises de recepção e as configurações identitárias.

 

            Stewart Hall estabeleceu as bases entre o marxisimo e a filosofia da linguagem: pensar a cultura significa pensar a linguagem. Os estudos culturais, em suas origens, passa a dar destaque então ao “texto” como tudo que articula uma expressão física da comunicação. É o signo (semiológico) que em última instância significa a cultura. Mas o próprio signo traz subjetividades, não tem conceito radicalmente fechado em seu significante. Ele depende de interpretações, é polissêmico – pois não existe alheio ao contexto. Há por traz do signo um processo de construção do sentido: o signo é ideológico. Ele só é signo quando é lido, sob alguma ótica. Os estudos culturais se voltam aos estudos da recepção: de que forma o leitor ler o signo, que processo ideológico há no leitor que o levará a interpretar o signo (polissêmico)?

 

            Há, a nosso ver, um avanço fundamental desses estudos nesse momento, pois retira da própria linguagem o poder de bastar em si mesma, como “expressão física da comunicação” e desloca para o receptor o domínio (quase total) de fazer essa linguagem existir. Não são mais os signos apenas; mas se esses signos são reconhecidos e de que forma. A interpretação é fundamental; mais fundamental do que a linguagem ela mesma. As alteridades, diferenças e manifestações identitárias passam a assumir um posto de destaque nos estudos culturais, pois é a partir dessas pontuações que podemos pensar de uma forma mais concreta a recepção, a linguagem, a interpretação dos signos.

 

            Cultural studies se tornam mais interdisciplinar e pensam a comunicação sob vários aspectos, inclusive o antropológico, identificando a linguagem (e os estudos de recepção dos signos) com o comportamento de grupos identitários.

 

            É o caso dos estudos da música popular. Foi a pesquisadora Sara Cohen em seu artigo de etnografia (1987) sobre os produtores de “young music” quem atentou para o comportamento desses jovens que produziam música pop em Liverpool (UK) durante os anos 80 – eram mais que 100 bandas pops em Merseyside. Em seguida, a antropóloga Ruth Finnegan (1989) também tem sua atenção chamada pela intensa produção cultural/artística desses jovens. Finnegan levanta 3 questões acerca do envolvimento desses jovens e sua arte: 1 – Ele se firma num corpo substancial de conhecimento e num ativo senso de escolha por parte dos músicos e público – os quais têm um claro entendimento das regras do gênero, das histórias, sem hesitação sobre fazer julgamentos do valor e significado musical. Ou seja, existe uma cultura presente na “young music” que tem bases internas, próprias, auto-referente, o que já levanta a questão de que qualquer discurso “externo”, midiático, sobre a “young music” significaria ter uma “aprovação” ou não, ser submetido a uma leitura da recepção, nesse caso especializada.

 

            O segundo ponto levantado por Finnegan (na verdade mais defendido por Cohen) é o de que as jovens bandas de rock e músicos colocam um alto valor na “originalidade” e auto-expressão: a música significa a identidade de cada um. A nosso ver, esse segundo ponto coloca a idéia de cultura emergente, fora das mídias tradicionais, nascida fora do mainstream, quase pessoal de tão identitária e existencial. Finnegan, enfim, em sua terceira observação, afirma que a performance (a apresentação das bandas) é o ponto vital de seu trabalho, o principal ritual, onde tanto o público como os próprios músicos assumem enorme importância. É a circunstância onde acontece a verdadeira experiência da realização.

 

            Simon Frith(1) (1991), em seu artigo “The cultural study of popular music” acrescenta que, em relação às questões de caráter mais antropológicos levantados por Ruth Finnegan e Sara Cohen, mesmo no nível mais “local”, tocar música é apenas uma parte de um conjunto de tarefas mais elaboradas e relacionamentos que envolve o mundo musical. Ela afirma: “…the simplest school or garage group becames a ´band´ by developing a support network of promoters and publicists, drivers and carriers, dedicated fans and followers.” (p.176). O que Frith talvez queira deixar claro é que em torno das bandas, monta-se toda uma estrutura organizacional onde pessoas assumem tarefas e desenvolve habilidades específicas. Isso inclui novas formas de comunicação onde os signos passam a ser mais comuns ao da cultura jovem, produzidos e interpretados para uma audiência com caráter identitário.

 

            Isso também nos permite pensar que fazer música, para esses jovens, é uma expressão de sociabilidade e socialidade. Por um lado, os egos individuais e as “diferenças musicais” presentes numa banda fazem com que os músicos entendam que o envolvimento pessoal depende da habilidade de fazer as coisas juntas. A conexão é a música, enquanto “trabalho” ou diversão que exige “trabalho” coletivo. Por outro lado, está implícita nessas práticas uma cultura que os coloca como espelho de si mesmos. A música articula a comunidade, juntado pessoas para uma experiência (com)partilhada, estabelecendo vínculos efetivos e afetivos.

 

            Frith, em sua conclusão, faz um retorno a Gramisch ao pensar os promoters, divulgadores, fans e seguidores como intelectuais “populares” (ou orgânicos), que reforçam e geram um processo “contra-hegemônico” de cultura, informação, linguagem, comunicação, através da música – a “young music”, ou melhor, da cena da música.

 

            “Cena” (scene) exatamente pelo caráter amplificador além da própria expressão artística (música), envolvendo outros níveis de trabalho e informação: um “mundo” além da música ela mesma.

 

            Will Straw, em “Systems of articulation, logics of change: commmunities and scenes in popular music”,  afirma que o senso articulado dentro de uma comunidade musical normalmente depende de um link entre dois termos: a prática musical contemporânea, de um lado, e a herança musical. Ou seja: por trás dessa conexão, há uma prática atual com informação, com background, o que reforça a idéia de que existe, nessas culturas jovens, um embasamento além-modismo e que norteia suas práticas com um fundamento, estabelecendo uma atuação dos envolvidos como num projeto estético, cultural, mesmo que não o seja polítivo, pois nem sempre se reivindica, nessas cenas, uma direção, nem se aponta um caminho definido.

           

            A cena se daria a partir desse link da “prática musical contemporânea” e da “herança musical”, implicando em um movimento que tem referências anteriores mas que se adequa e assimila novas mudanças. Cena é então definida por Straw como “..is that cultural space in which a range of musical practises coexist, interacting with each other within a variety of process of differentiation, and according to widely varying trajectories of change and cross-fertilization”.

 

            Uma das cenas que mais impressionaram no início dos anos 90 (particularmente na Inglaterra) e continua a existir é o que se chamou de cultura rave. O conceito rave, nascido no final dos anos 80  e fortalecido e advindo da produção da música eletrônica, foi formatado em festas em espaços abertos fora do perímetro urbano das cidades ou em galpões abandonados da periferia, ao som da música hipnótica tecno e de drogas como o Ecstasy (ou MDMA, XTC, E., X, Adam) e o ácido (LSD). Como idéias principais, os ravers acredita(va)m no dogma Plur (peace, love, unity and respect – paz, amor, unidade e respeito). A música, “executada” em pick ups (pratos toca-discos de vinil) por dee jays, envolvia os clubbers, ravers em danças por horas a fio, numa grande celebração tribal de alegria e êxtase.

           

            Acontecendo fora das mídias, essa cena sempre usou suportes de divulgação independentes das mídias comerciais. Flyers, telefones móveis, sites, chats, listas de discussão na Internet eram – e são – os principais recursos de divulgação dos eventos e idéias em torno da música eletrônica, sempre baseados na alta tecnologia. A cena, portanto, é marcada pelos conceitos do underground (música experimental sem caráter comercial, formas alternativas de informação…) até que foi se tornando – as raves, as technoparties – uma possibilidade de lucro, um negócio, um empreendimento. Promoters mais comerciais entram na cena e levam-na para o mainstream, para o mercado: as raves passam a ser produto de consumo e ganham espaço em mídias tradicionais. Se compararmos historicamente a trajetória desta cultura nos EUA e Europa, essas características comerciais estão presente desde o início da cena, conforme escreve Stiens:

 

A cena rave cresceu nos EUA entre 1993 e 94. Enquanto as cenas raves na Inglaterra e Alemanha estavam se tornando “impérios” comerciais, a cena americana ainda tinha um idealismo “fresco”. Existem agora raves acontecendo em todo o       país, em todos os estados. A cena rave chegou.” (tradução  nossa)

 

            Embora esse aspecto – a comercialização – não caracterize toda a cena da música eletrônica atualmente, mostra, por outro lado, uma nova face; face essa que traz consigo o outros públicos e surgimento de novas tribos de ravers, clubbers.  Agora, uma década depois, temos novos contextos, novos dados em torno do que conhecemos como Cultura Rave.

 

            Um outro aspecto é que as tribos não existem apenas e nem se formam estritamente a partir do dogma paz, amor, unidade  respeito e da música, mas, principalmente, em torno das vertentes, dos estilos da música eletrônica (house, tecno, trance e breakbeats…) – gerando novos comportamentos e formas de socialidade. Webzines se especializam em vertentes. Listas de discussão específicas são criadas para debater cenas dentro da cena. Ou seja, surgem e se consolidam novas comunidades virtuais em torno da Cultura da Música Eletrônica; novos agrupamentos florescem associados especificamente a estilos da música binária. No artigo Tecno – o futuro acelerado, a jornalista Erika Palomino identifica e existência de clãs:

 

                                  “…turmas mais fechadas, grupo de amigos, subgrupos dentro de um subgrupo. Os clãs frequentam a lugares específicos;    atendem também a determinadas preferências dentro do próprio tecno; ficam em lugares pré-estabelecidos por eles mesmos dentro dos clubes e não se misturam com tanta freqüência.”

 

            No âmbito do ciberespaço, no ano de 1999, duas novas listas de discussão foram criadas no Brasil (já havia a BR-Rave destinada ao tecno e ao house, principalmente). Agora os integrantes da cena se segmentam em fóruns específicos de música trance e de drumNbass.

           

            E mais: surgem outras tribos com comportamento “estranhos” às origens dogmáticas do Plur na cena rave. Esses grupos incorporam até a “treta” (briga de tribos) em seu comportamento para defender suas idéias. São os Cybermanos – saídos da periferia de grandes centros urbano, como São Paulo. Em seu site Esta é verdadeira história clubber  eles se afirmam como os verdadeiros clubbers e identificam inimigos de sua cena, particularmente os carecas (skinheads) do ABC Paulista, os punks e os skatistas.

A cena rave e o conceito Plur não deixam de existir mas perdem seu posto de norteadores da cena,  passando a fazer parte de um conceito mais amplo – a Cultura da Música Eletrônica, ou a Cena da Música Eletrônica

 

            A cultura da música eletrônica é hoje entendida como a concentração de várias segmentações e cenas: a cena rave, a cena clubber, a cena fashion (que tem consolidado a correlação entre eletrônica e moda), a cena gay (também marcada por passeatas e clubes/boites que executam música eletrônica)…Ou seja, o que se vislumbra hoje é um contexto de uma expressão mais ampla, menos romântica e que aglutina desde os idealismos da paz, amor, unidade e respeito até o oportunismo empresarial em relação à música binária (festa comerciais; eventos de marketing de grifes; música “baba”, de consumo, sem qualidade estética), passando pelo entrada de novos grupos (tribos) com outras posturas e que buscam seus espaços de socialidade dentro e fora do ciberespaço.

           

            Por outro lado, as características mais associadas ao conceito do Plur (a produção underground da música eletrônica, distribuição independente de CDs e Vinis, festas não comerciais, dee jays, tribos…) estão presentes tanto em grandes centros metropolitanos mas igualmente em cidades menores, menos desenvolvidas e até subdesenvolvida. Situação que reforça a idéia de uma cultura rizomática (universal, com conexões em diferentes regiões do planeta) e da desterritorialização da Cultura da Música Eletrônica – dado que aponta um caminho de crescimento globalizante. A Cultura da Música Eletrônica é um elemento do Rizoma, associada às redes de conectividade.

           

            Essa arte – a música eletrônica -, gerada com base na micro-informática e outras tecnologias decorrentes ou não da micro-informática, trazem também a característica da autonomia e da centralização dos processos de produção. De posse de um pequeno aparato tecnológico, o produtor musical cria sua música (techno, house, jungle, trance etc), gera suportes (vinis, MDs, CDs, arquivos temporários em redes de computadores como ra, mp3, wav, mids etc) para a difusão de sua arte, sem a necessidade de compromissos contratuais e dependências de estruturas comerciais tradicionais.

           

            O conjunto desta produção mundial gera também um enorme banco de dados para uma reciclagem infinita: o sample (o recorte, a amostra) é o elemento fundamental para a mixagem e a remixagem na criação de novos sons, de novas músicas. Conforme afirma Lévy (1999: 136): “A música techno colhe seu material na grande reserva de amostras (samples) de sons“.

 

            O caráter rizomático, espaços de socialidade nas nets e a criação de instrumentos de difusão alternativa das informações garantem a permanência de conceitos autênticos de uma estética que o mainstream (atuando mais localmente, em função de um retorno financeiro mais urgente) não poderá destruir e nem mesmo acompanhar. A rapidez da transferência de informações de qualidade underground, não comercial da Cultura da Música Eletrônica (principalmente através das redes de conectividade), permite e reforça os conceitos mais “roots” (mais enraizados) de uma estética que o mercado decodifica com lentidão e sem a mesma destreza de quem integra e percorre os caminhos da cena underground.

 

            Esses conceitos são defendidos pelas comunidades virtuais ligadas a E.music e reforçados nos suportes que incrementam essas comunidades dentro da Net (selos alternativos de vinis, cd´s, listas de discussão, sites, chat…) e fora dela (revistas especializadas, festas, lojas alternativas, pontos de encontro, bares e clubes, raves…). Nesse sentido, a Cultura da Música Eletrônica, associada sempre às tecnologias contemporâneas, não perde seu fio condutor inicial (da cena rave, da música underground) pois conta com a autonomia das tribos em relação ao mercado tradicional. Aqui tambémse aplica a idéia de Straw da prática musical contemporânea e da herança cultural musical.

 

            Douglas Rushkoff (3) (1999) identifica os ravers (ativistas/frequentadores das raves) como aqueles que “adotam a tecnologia por sua capacidade de samplear e recombinar sons e imagens de toda a história cultural, e ainda mais pela capacidade da tecnologia de forjar uma nova cultura global”. Prática contemporânea e retomada da herança cultural.

 

            Um dos artigos mais interessantes sobre a cena dita rave e a mídia é o de Sarah Thornton(2) (1994). Ela se volta ao surgimento da cena na Inglaterra (em fins dos anos 80 e início dos 90) e retoma essa discussão nos cultural studies, discutindo o que ela chama de “pânico moral”.

 

                       Thornton abre seu artigo criticando os estudos anteriores que sempre procuram recuperar a idéia de que “cultura” é o que está fora das mídias. Ela acha que a própria academia reforça esse equívoco quando utiliza termos que trazem um discurso anti-mídia, com chavões “comercialXhegemonia”, “produtor vendávelXincorporado”, “undergroundXsubcultura”. Thornton quer, em seu artigo, mostrar que sempre houve uma vinculação direta entre a mídia tradicional e as culturas, inclusive as populares. E que uma não sobrevive sem a outra; uma necessita da outra para se fortalecer.

 

            A cena “acid house” (primeiro nome das festas raves na Inglaterra, por tocar principamente house music e ter a presença de drogas como o lsd) sempre sofreu uma cobertura sensacionalista dos tradicionais tablóides ingleses, que destacavam o uso de drogas. Ao atacar a cena acid house, esses tablóides publicizam cada vez mais a cena e terminava por fortalecê-la. As festas, nessa época chegam a ter um público de 8 mil a 15 mil pessoas e aconteciam nos campos da Inglaterra. Passaram a ser uma preocupação oficial a tal ponto que o governo britânico criou legislação específica que proibia festas fora da cidade com “música repetitiva”.

 

            Thornton afirma que, se a mídia fazia discurso sensacionalista e distorcia a informação, isso por outro lado criava a necessidade da cena da acid house inventar seus instrumentos de comunicação para rebater as informações, fazendo surgir suportes alternativos de mídia, como fanzines, flyers, uso de redes de computadores. Se a cultura underground é tida como ilícita, a mídia (ao invés da polícia) é quem aprisiona, através da intrepretação (construção de sentido) para as outras camads socias. Daí a necessidade de isntrumentos de respostas. Nesse vai e vem de discursos, de construção de sentidos, é a própria cena quem ganha espaço, quem cresce e o jornalismo sensacionalista vende. Ao desaprovar moralmente as acid house parties, os tablóides mostram um pânico moral que é nada mais que a “metáfora que descreve uma sociedade moderna cheia de medos sobre suas próprias virtudes” (Thornton).

 

            Para melhor entender essa relação de conflitos entre cultura jovem e mídia, de discursos, de construção de sentidos, Thornton pede ao pesquisador que observe: 1. de que forma o discurso jovem posiciona a mídia?; 2. como a mídia se instrumentaliza diante dessa cultura? Thornton quer alertar que na verdade a juventude se ressente mais se os mass media aprovam sua cultura: sua cultura é rebelde e não deve ser aprovada pela mídia, representante do status quo. Se a juventude tiver sua cultura rejeitada, aí sim, há radicalidade nela. Por outro lado, os estudos culturais tendem a posicionar, segundo Thornton, a cultura jovem como “inocente vítimas das versões negativas da mídia”, quando a mídia trata a cultura jovem como qualquer outro produto de mercado, vendável, enquanto notícia.

 

            Ela cita o exemplo de como se dá o pânico moral. Enquanto a BBC londrina afirmava através de um dj entrevistado que a cena acid house nada tem a ver com drogas, o selo de vinil acid tracks descreve o som como “drug induced”, “psychedelic”. O pânico moral se dá sempre na relação entre mídia e cultura jovem, mas é, significativamente uma estrátégia eficaz de marketing. A indústria cultural, ao contrário do que se defendia,  gera idéias e incita a própria subcultura. É o caso da disseminação da droga Ecstase (MDMA) que terminou amplamente sendo divulgado pela própria mídia, ao ponto da revista Melody Maker produzir um guia de uso da droga.

 

            Thornton, na discussão sobre cultura jovem e mídia, afirma que os cultural studies exageram: vêem de forma estereotipada os produtos da indústria cultural e exageram a presença da resistência (subculturas), quando os dois sempre estiveram interdependentes historicamente. Os mass media tornam as subculturas politicamente relevantes.

 

            O que fica, nessa trajetória dos estudos culturais em destacar a cultura jovem para suas análises (desde as abordagens iniciais) é que os estudos da comunicação humana tornaram-se definitivamente interdisciplinar e capaz de pensar, com a ajuda de novos instrumentos teóricos inclusive de outras ciências e até da arte, todas as atividades humanas como expressões resultantes da relação entre cultura e comunicação.

 

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Notas

(1) Ler o artigo “The cultural study of popular music”, in Cultura Studies. Routledge. Londres-New York (1991).

(2) Ler o artigo “Moral panic, the media and british rave culture”, in Microphone fiends. Routledge. Londres-New York (1994).

(3) Ler o livro “Um jogo chamado futuro – como a cultura dos garotos pode nos ensinar a sobreviver na era do caos”. Editora Revan. Rio de Janeior. 1999.

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* Cláudio Manoel (ou Cláudio M.) é jornalista de formação, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, professor das Faculdades Jorge Amado, fundador e dj do grupo de música eletrônica Pragatecno, sub-editor da publicação 404nOtF0und, integrante do Núcleo de Pesquisa Humanidades e coordenador do Atelier de Comunicação e Cultura das Faculdades Jorge Amado, membro do coletivo de artistas digitais e-letroINvasores, moderador da comunidade virtual PragatecnoBrasil e produtor cultural.




Loops, samples, cultura técnica e cibercultura

Arquivado em: cibercultura, música eletrônica — claudiomanoel @ 1:02 am

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Por Cláudio Manoel Duarte de Souza

Um dos argumentos que mais reflete a falta de compreensão sobre os processos de produção da música eletrônica é de que esta é “feita por computador (máquina)” – e não “através do” -, portanto, uma música “mecânica, fria, sem alma”. Por trás desse argumento, pode-se identificar alguns problemas relacionados à Cultura Técnica – ou melhor, a falta desta e incompreensão dos processos de produção da Cibercultura. Um deles é a dificuldade de entender o objeto técnico como algo que, embora inventado, é naturalizado no decorrer do tempo. Quanto mais recente a invenção, mais estranha é a sua absorção enquanto objeto “natural”. O outro problema é o fato de que o objeto técnico, reapropriado, passa a ter uma outra significação.

Não precisamos entender, a fundo, por exemplo, porque ao girar a chave da ignição de um carro, o mesmo pode andar, impulsionado pelo motor – uma atividade complexa gerada a partir de engrenagens e de relações entre mecânica e eletricidade. Ligar o carro e fazê-lo funcionar é uma atividade técnica naturalizada, assim como acender uma lâmpada ou aquecer uma pizza no microondas. O tempo nos faz entender ou conviver sem estranhamento com esses objetos técnicos. A novidade, ao contrário, sempre não é “natural”. É que há uma cultura estabelecida não científica nem técnica que interpreta o surgimento de novos objetos técnicos ou como um produto utilitário, apenas, e sem significação ou, por outro lado, como algo rebelde e com intenções próprias, conforme argumenta Simondon (1958:11):

“… de um lado, ela os trata como pura junção de matéria, desprovida de verdadeira significação, e apresentando somente uma utilidade. De outro lado, ela supõe que estes objetos são também robôs e que eles são animados de intenções hostis para com o homem, ou representam para ele um permanente perigo de agressão, de insurreição”.

A frase “música feita por computador (máquina)” remete a essa compreensão. É retirado desta máquina um significado (ou se dá a ela uma utilidade básica, rotineira e mecanicista). Por outro, se exagera ao atribuir a essa máquina a execução, independente da interferência humana.

Mas se, por mais complexo que seja o objeto técnico, ele é naturalizado pelo tempo, passa mesmo a integrar a própria vida, de forma “natural”; esse objeto técnico “natural” é entendido como uma extensão do homem. O “andar” do carro, o “acender” da lâmpada, o “aquecer” a pizza no microondas é natural. O computador, digamos, já é um objeto técnico naturalizado. Estranho mesmo é o “fazer” a música através do computador ou sampler – pois essa técnica não foi “naturalizada”.

Atribuir a significação de fazer música ao computador não é ainda natural; natural é essa máquina armazenar dados ou substituir a máquina de escrever tradicional Surge aí uma outra observação. O objeto técnico, mesmo naturalizado pelo tempo, ao ser utilizado com uma nova significação é igualmente “estranhado” até que esta nova significação a ele atribuída seja também “naturalizada”.

Para Simondon, a mais forte causa da alienação no mundo contemporâneo reside no desconhecimento da máquina, “que não é uma alienação causada pela máquina, mas pelo não-conhecimento de sua natureza e de sua essência, pela ausência do mundo das significações, e pela sua omissão no quadro dos valores e dos conceitos que fazem parte da cultura” (1958:9).

Mas a própria falta de uma Cultura Técnica é algo mais profundo do que a aceitação natural dos objetos técnicos e suas várias formas de significação e utilização propostas através do tempo. Uma Cultura que nos dê bases para compreender a máquina, ela mesma, e raciociná-la, desde já, como nossa extensão, pois se a Cibercultura[1] é resultado da apropriação das tecnologias, é o resultado de uma certa forma de usar os recursos tecnológicos disponíveis, a compreensão de que os objetos técnicos, das tecnologias, elas mesmas, podem ter outras significações – outros usos – é algo anterior à naturalização dada pelo tempo.

As etapas seriam: os objetos técnicos são inventados, chocam pela novidade e, em seguida, são absorvidos como naturais legitimados pela ação do tempo: eis sua “naturalização”; podem surpreender mais uma vez, se a eles forem atribuídas novas funções, que deverão ser “naturalizadas” pelo tempo, posteriormente.

O impasse mesmo se constitui nas agilidades: da invenção técnica, da naturalização do objeto, da naturalização das resignificações (reapropriação) dos objetos técnicos.

A cultura está a reboque das invenções e de sua naturalização.

Isso é o que justifica o argumento de que a música eletrônica é “feita por máquina”. Falta Cultura Técnica para entender o processo de produção e funcionamento dos novos objetos técnicos, falta cultura para entender as novas atribuições e significações desses objetos e ainda não houve o tempo necessário para a naturalização dos mesmos. O exemplo ícone é o do sampler e de softs que editam sons, que produzem música. Um sampler é um instrumento de produção musical? Ou melhor, um sampler é um instrumento musical? Um computador é um instrumento musical?

O próprio tempo nos fez naturalizar a idéia de que um violão, ou um piano – invenções – são instrumentos musicais. São artefatos – fruto do pensamento inventivo. São objetos técnicos, extensões maquínicas do homem e já tiveram seu momento de estranhamento.

Peter Ilich Tchaikovsky (1840-93) incluiu em sua sinfonia “1812″ um tiro de canhão – som, ou timbre, nada convencional saído de um objeto – agora instrumento musical – também nada convencional. Por trás desta experimentação estética, Tchaikovsky aponta um caminho percorrido pela música eletrônica: a busca de novos timbres e o entendimento de que outros instrumentos, que não os “tradicionais” (naturalizados), fazem música, produzem ritmo e melodias, ordenam ruídos.

Uma pick up foi projetada para rodar discos de vinil. Essa utilidade desse objeto técnico está naturalizada pelo tempo e nem precisamos entender o funcionamento desse maquinário, de sua estrutura interna. Mas entender essa mesma pick up com outra significação, como um instrumento musical, está além na naturalização inicial do próprio objeto; está diretamente relacionado à naturalização desta nova significação aplicada a ele. Pois há um conjunto de técnicas desenvolvidas pelos djs (como o back-to-back, back spin, scratch, mixagem, remixagem) que atribuem a essas pick ups um valor de instrumento musical de percussão e de produção de texturas sonoras. É preciso ter a consciência – Cibercultura – de que os objetos técnicos podem desenvolver novas atribuições. Sobre o que Simondon (1958:13) afirma:

“Uma verdadeira tomada de consciência das realidades técnicas agarradas em sua significação corresponde a uma pluralidade aberta de técnicas. Não se pode aliás caminhar de outra maneira, porque um conjunto técnico, mesmo de pouca extensão, compreende máquinas cujos princípios de funcionamento restabelecem domínios científicos muito diferentes”.

Simondon reforça a idéia de uma reversão, até, das utilidades iniciais de um objeto técnico e justifica, em primeira instância, que qualquer instrumento pode ser um instrumento musical, por exemplo, se essa significação for atribuída a ele.

O músico contemporâneo Marcelo Martins, de Brasília, defende que “…não importa muito se você está com um violoncelo, um tambor, um toco de madeira ou um teclado sofisticado: o que interessa é como se dá o fluxo da sua idéia até o equipamento que você está usando!!!”. Ora, o músico alagoano Hermeto Pascoal utiliza uma gama de objetos – inclusive sucatas – e lhes atribui a significação de instrumentos musicais.

É interessante registrar que, em plena década de 20, a peça musical (Ballet Mechanique) foi composta para ser “tocada” por máquinas de fábricas. Uma sinfonia produzida pelas ruidosas máquinas, agora instrumentos musicais – portanto objetos técnicos que teriam que sofrer uma nova naturalização, desta vez pela nova significação a eles atribuídos.

Essa indisposição à máquina e suas novidades é resquício de uma cultura ludita – ou a presença do neoludismo. A ausência de uma formação de Cibercultura traz ao homem a postura de ressentimento em relação à máquina. A máquina é um instrumento acelerador da produção (inclusive simbólica) e portanto libertador de atividades mais “automáticas”. A máquina resgata para o homem a sua autêntica função de pensador. Pensador que propõe novas significações, novas formas de usar as máquinas.

Em resumo, os objetos técnicos são naturalizados pelo tempo em sua significação inicial (para “o quê” eles foram inventados), mas sua resignificação (uma nova forma de usar o mesmo objeto técnico) coloca em xeque mais uma vez a nossa falta de Cultura Técnica. É essa reutilização do mesmo objeto (sua resignificação) que deverá ser naturalizada.

Em breve, enfim, uma pick up, além de ser um instrumento para tocar músicas em vinis, poderá ser compreendida como um instrumento musical de percussão também – a partir da naturalização não do objeto, mas de sua resignificação, assim como os computadores, instrumentos de produção muito mais do que armazenadores de dados.

* Cláudio Manoel (ou Cláudio M.) é jornalista de formação, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, professor das Faculdades Jorge Amado, fundador e dj do grupo de música eletrônica Pragatecno, sub-editor da publicação 404nOtF0und, integrante do Núcleo de Pesquisa Humanidades e coordenador do Atelier de Comunicação e Cultura das Faculdades Jorge Amado, membro do coletivo de artistas digitais e-letroINvasores, moderador da comunidade virtual PragatecnoBrasil e produtor cultural.

Referência bibliográfica:

SIMONDON, G. Du Mode D´Existence des Objets Techniques. Editions Aubier, 1958.

__. Sobre a tecno-estética: carta a Jacques Derrida. … 1992



[1] Segundo Levy: “… conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”.

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