artigo/Bits e bumbos caetés

Não importa se é bumbo ou sampler, triângulo ou sintetizador: tem que ter groove, tem que ter aquela levada!
Por Fernando Liptzer (colaboração especial)
Ainda no final do ano de 2000 uma experiência inusitada de produção musical aconteceu em Maceió. Eram os djs Angelis Sanctus e Beto Farias experimentando um crossover entre os grooves eletrônicos com os sons roots do folclore alagoano – as Baianas Mensageiras de Santa Luzia.
Tudo começou em uma festa do Pragatecno, num galpão em Jaraguá, onde a idéia principal era, além dos estilos tocados nas pistas como a house, techno e drum and bass, os djs Angelis Sanctus e Beto Farias apresentarem um live pa com a presença real das baianas e seus músicos, interagindo em show. Bumbos, cantorias, groove box, toca-discos e scratchs se misturaram.
A festa teve pouco público – uma boa parte ficou na área de fora do galpão. “Acredito que por preconceito mesmo; por ter achado estanha a proposta. A moçada da eletrônica ás vezes é purista e não abre o coração para outros sons; e o povo que gosta só de MPB é sectário e míope e pré-concebe um não-gostar sem mesmo ouvir”, detona o dj Angelis.
Pois quem não viu perdeu um dos momentos mais interessantes (e históricos!) da conexão entre a música sintética e os grooves acústicos de nosso rico folclore, também cheio de grooves.
Maceió dava exemplo para o Brasil no ano de 2000, quando ainda os grandes centros como ainda começavam misturar beats do samba com o drum and bass.
Falando em produção de eletrônica. Maceió já tinha dados dois grandes exemplos. Um foi a produção da coletânea Sombinário Pragatecno – para quem não sabe o primeiro cd de eletrônica do norte e nordeste e o primeiro cd duplo de eletrônica do País – só com produtores alagoanos, lançado pelo selo carioca Utter Records. Um outro exemplo foi o surgimento do próprio Pragatecno, há quase 10 anos, que rompe com a idéia de que as culturas jovens “glocais” só se fixam em grandes metrópoles.
A disposição das senhoras Baianas Mensageiras de Santa Luzia em participar dessa experiência cruzamento com a música eletrônica também coloca em xeque uma outra visão purista de folcloristas que querem aprisionar a cultura popular em uma redoma, protegido de um mundo mais complexo de sonoridades, onde a interação seria prejudicial. É bom entender que a complexidade da produção simbólica humana – essa parte da cultura que é coletiva e pública – tem vida própria e busca ou rompe com novas associações, gerando algo sempre novo, híbrido – afinal, o mundo gira!
E foi exatamente essa experiência e seu conceito – os bits e bumbos caetés – que chegaram aos ouvidos dos curadores do projeto Balaio Brasil, que, prontamente, bancaram a ida de 8 músicos e cantoras do grupo folclórico e mais os 2 djs para um show no Sesc Pompéia, em São Paulo. Foi um luxo ver aquelas senhoras e senhores (pela primeira vez viajando de avião, recebidas como artistas em hotéis e restaurantes em São Paulo) ao lado dos djs, no palco do Sesc Pompéia.