artigo/Cultura e Rede – (tópicos para discussão?)

Anotações de Cláudio Manoel Duarte
1. As redes telemáticas sempre propuseram um espaço avançado de circulação de informação.
Não só do ponto de vista técnico, como espaço inovador que supera os limites da geografia, mas como espaço de fluxo para a circulação de idéias.
Desde as BBS, ou CBBS – Computer Bulletin Board System (“Sistema de Quadro de Avisos por Computador”) – tivemos pessoas conectadas, de bairros distantes e até de outras cidades. E o que as conectava e conecta não é tão somente rede em si, meramente técnica, mas a informação, a circulação da cultura.
Os BBSs nasceram em 1977 nos EUA e em 1984 no Brasil, muito antes da Internet ser comercializada por aqui. Seu auge foi entre 1990-1997. Hoje são raros. Mas, à época, significavam trocam de informações (imagens, textos e principalmente softwares) e com isso já geravam comunidades que faziam circular a cultura digital, propriamente dita, mas também literatura e até pornografia. Eis aí as duas características que sempre marcaram a rede quando pensamos em cultura: a informação científica/técnica de toda ordem e as práticas hedonistas.
2. As redes fora da macro informática empresarial só puderam existir por conta da repercussão da contra-cultura da paz e amor dos anos 60-70. Em 1976 temos um marco da revolução na informática, que entra no cotidiano do cidadão comum. Os jovens Steven Jobs e Steven Wozniak, universitários da Califórnia (EUA) se entregam ao sonho da informática para o povo e, abandonando os estudos, lançam o Apple I. Eis o personal computer, o PC. O Altair 8800, o primeiro computador de uso pessoal anunciado pela revista Popular Eletronics, já havia sido produzido no Novo México. Mas o PC dos jovens Stevens (criado em na casa da família de Jobs) continha o discurso advindo da contra-cultura e propunha uma informática para a vida do cidadão comum. Com a criação do pc surge o projeto/proposta de se buscar processar as informações eletronicamente de forma descentralizada. A informática se torna micro-informática e sai dos grandes gabinetes. Preços acessíveis transformam a fábrica dos Stevens numa das empresas dos Eua.

3. A micro-informática se encontra com a rede mundial, com internet, e a informação circula até nossos quartos de dormir, nas nossas casas. O inverso também é verdade: do nosso pc caseiro jogamos informações para o mundo. As culturas de toda ordem circulam potencialmente para todos. As culturas definitivamente entram em rede.

4. Sim, as culturas (no plural, pois outras correntes culturais ligadas ao underground entram em rede) circulam e estruturam comunidades temáticas, pautadas na cultura identitária. Tribos urbanas ganham voz no ciberespaço. As novas práticas culturais dentro da própria rede, alteram sua configuração técnica e seu objetivo ideológico (se é que podemos identificar uma ideologia da rede).

5. Uma corrente cultural altera e resignifica uma técnica. Mesmo a Arpanet, rede que formou a internet, foi marcada por essa transformação. A internet, criada originalmente com fins militaristas, é hoje uma ambiência resultante da: cultura da academia/científica; da invenção da micro-informática e do pc; a cultura hacker e o Caos Computer Club – que militam pela livre informação. As redes também trazem um dado novo na estrutura tradicional da comunicação. Antes das redes telemáticas, o receptor, aquele que consumia a informação, quase que passivamente, depara-se com um outro processo de comunicação de mão dupla, onde ele, receptor, é o emissor também.

6. Se a emissão das informações em rede foge do controle dos detentores dos meios tradicionais de comunicação, o receptor agora é também proprietário do pólo de emissão. Lemos : “o ciberespaço permite uma libertação do pólo da emissão, onde cada um pode colocar suas idéias, opiniões e informações sem passar por um centro editor como no caso dos mass medias”. As teorias de comunicação, que estavam pautadas no modelo emissor/mídia/receptor não mais davam conta dos novos processos comunicacionais em rede. E mais: em que sentido, então, o poder adquirido pelo usuário comum do ciberespaço na produção, circulação e consumo de suas informações abriu espaço para a construção e circulação de culturas identitárias? Partindo do princípio de que as subculturas ou estilos de vida – antes alijadas dos mass media – agora estão presentes na rede, temos consolidado nesse espaço agrupamentos baseados em cultura identitárias – através de sites e principalmente listas de discussão. As subculturas em rede se organizam em comunidades. Essa é uma outra característica da cultura em rede: o agrupamento temático. Informação especializada alimenta os focos de interesse. A liberação do pólo emissor da informação em rede incentivou, a nosso ver, a efervescência de subculturas, ou culturas do underground.

7. Essas culturas undergrounds dentro do ciberespaço materializam projetos e práticas que reformatam dinamicamente o seu próprio ambiente de existência. Um exemplo mais particular de como as práticas sociais simultâneas incentivam o desenvolvimento de novas formas e processos é a criação do Napster e toda a gama de softwares baseado no P2P (computador a computador) assim como tipo de mídia/arquivos como o MP3, que agilizou a circulação do áudio como informação sem controle. Foram as subculturas em rede que os inventaram. Softwares como o Soulseek ou E-Mule são fundamentais para a circulação livre de arquivos por não sofrerem qualquer tipo de censura ou controle de servidores. Os (micro) computadores abertos (p2p) transformam o ciberespaço num enorme computador coletivo, embutindo aí o centro da cultura hacker: “a informação quer ser livre”. Então, as culturas querem ser livres, na rede.

8. Esses programas compactadores (mpeg, mp3) e ponto a ponto (p2p) intensificam por exemplo processos de produção cooperativa. Um simples MP3, associado ao p2p, coloca em xeque o poder das grandes corporações fonográficas que sempre tiveram controle sobre a circulação da música, no mundo.

9. O que queremos registrar é o fato de o ciberespaço, como espaço de fluxos (CASTELLS), viabilizar não só: 1 – a difusão de culturas emergentes, a partir da liberação do pólo emissor da comunicação, como também 2 – a abertura de vias para o trabalho coletivo à distância, 3 – o incremento da formação de comunidades temáticas, identitárias e 4 – a capacidade de ser transformado técnica e sistematicamente a partir de novas correntes culturais (subculturais).

10. No geral, as tecnologias do digital trazem a característica da centralização dos processos de produção. Se anteriormente o mercado fonográfico propunha um artista refém – sua etapa de criação era separada da gravação e circulação do produto, ficando à mercê das regras da indústria do entretenimento lucrativo -, hoje, de posse de uma infra-estrutura pessoal – um homestudio – o artista tem controle sobre a tríade produção/circulação/consumo. Suas máquinas caseiras (pc e toda ordem de low e high tecnologias) se plugam às redes telemáticas e propõem a ele mesmo, o artista, um novo mercado, onde esse artista o dirige, da arte ao marketing. O artista contemporâneo digital configura-se como um artista-empresário-multimídia. O pólo emissor aberto pela internet e a tecnologia, agora domesticada, é o instrumento do poder pessoal em resposta às empresas coorporativas.

11. A rede propõe o remix cultural, onde todos os conjuntos de informação/cultura se conectam e geram novas sínteses.

12. É possível ainda se produzir arte/ciência etc em formas de cooperação à distância entre artistas/cientistas que nunca se encontraram (ou nem mesmo se encontrarão) fisicamente. A rede é uma cooperação cultural sem geografias.

13. Então, o ciberespaço, ou a rede, não deve ser pensado como uma infra-estrutura técnica particular de telecomunicações, (mas) como uma certa forma de usar (Levy), uma certa forma de apropriação das infra-estruturas existentes. A cultura se apropria e modifica o sentido da técnica.

14. Creio que as comunidades on line, ao processarem a cooperação através da troca de informações, que as consolidam enquanto grupo, independentemente de proximidades geográficas, são o grande suporte para a cultura em rede. Para citar Lemos , essas comunidades resgatam-se no “sentimento expresso de uma afinidade subjetiva delimitada por um território simbólico, cujo compartilhamento de emoções e troca de experiências pessoais são fundamentais para a coesão do grupo”.

15. Mas a conexão cultura/rede tem trazido outras discussões. Uma delas é a reconfiguração do mercado autoral e da propriedade intelectual. Um trabalho disponibilizado em rede perde o controle de circulação e manipulação. Passa a ser um arquivo digital que pode ser baixado, manipulado e re-enviado para qualquer um. Em rede, a informação quer ser livre em produção, circulação e consumo.

16. Projetos culturais tipo org se articulam e antecipam a discussão do direito autoral, da jam session à distância e do remix cultural. RE:combo, PingFM, Creative Commons (ver anexo).

17. Tudo pode estar em rede – pelo menos as representações do tudo. A rede hoje é instrumento de reordenação da informação e de mercados de bens de consumo/simbólico de várias ordens. Inclusive de mercados que estavam fora do ciberespaço: o turismo, por exemplo, é um conjunto de arquivos digitais e está em rede e parece uma contradição: o turismo de verdade, aquele local, é físico. Mas turismo é informação em rede. Informação é cultura. Turismo é cultura.

18. Cultura é toda produção material e simbólica do humano? Então a rede e seus fios e cabos e idéias são cultura. Tudo que está em rede é cultura. A cultura é rede; a rede é cultura.

|||||||||||||||| arte e rede:

Creative Commons

http://creativecommons.org

Compartilhamento de obras artísticas e educacionais via rede, de músicos, fotógrafos, ilustradores, escritores, blogueiros, videastas, educadores…
imagem | texto | som
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Domínio Público – artista abre mão da autoria e sua obra circula sem controle para todo tipo de uso e transformação

The Sampling Licenses

Gilberto Gil terminou inspirando o desenvolvimento do Sampling License com a ajuda do grupo Negativland ao disponibilizar sua música para remixar. O Creative Commons disponibilizou o Sampling Licenses em dezembro de 2003.

Arquivos liberados (áudio e vídeo):

Soundlick

http://www.soundclick.com/genres/cc_license.cfm

Mais de 37 mil arquivos (só de áudio)

PINGFM

http://pingfm.org

A Pingfm trabalha desde 2000 com a produção ao vivo de áudio e vídeo via Internet em sistemas colaborativos à distância e em tempo real

Eventos e fóruns:
ping_in_progress (PIP) – Weimar (2001)
SCHLAF! juntamente com o Theaterhaus Weimar (2001)
strategic media deployment conference (SMDC), Weimar (2001)
NOBORDER- Camp Radio, Strassbourg (2002)
PAUSEANDPLAY- exposição em Weimar e no Recife (2003/4)

PAUSEANDPLAY (Recife) – 2003

Re:combo

http://www.recombo.art.br

O fim do copyright e a expansão do copyleft (deixar copiar)

“(…) a música era tocada apenas por prazer, e a sua criação, até então, era coletiva, fosse nas aldeias européias do século XVI ou nas ocas cerimoniais do Brasil pré-1500. Mas, em meados do século XVIII, isso mudou. A arte que era livre virou mercadoria, e a composição, tão relacionada apenas ao dom e à diversão, virou produto de especulação e exploração industrial.”

“O re:combo não é contra a remuneração dos criadores intelectuais como forma de contraprestação ao seu esforço interior no processo de desenvolvimento criativo. Por outro lado, acredita que os institutos extremamente restritivos e mantedores de uma proteção excessiva e exclusivista quanto ao uso de obras intelectuais pelo autor ou por outros titulares de direitos sobre determinada obra (…) não mais condizem com a nova ética e com o comportamento decorrente dos avanços tecnológicos, da revolução digital, e muito menos com as possibilidades criativas surgidas desde então.”

Licença de Uso Completo Re:combo

“Através desta Licença de Uso Completo Re:combo, todo trabalho audiovisual ou fonográfico produzido pelo coletivo (ou de quem adotar a Licença) fica, de uma forma perfeitamente legal dentro da legislação brasileira, permanentemente aberta e livre, para fomentar novas produções também abertas e garantir a livre circulação de obras intelectuais em prol da generosidade intelectual e do progresso da humanidade.”

OPEN SOURCE: Utilização dos trabalhos em Códigos abertos para remixes em Som | Imagem | Texto | Software | Perfomances | Exposições

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