entrevista/Pragatecno no Rraurl

Jamile Pinheiro entrevista Cláudio Manoel (Rraurl)

Dj Angelis Sanctus (aka Claudio M. ) na festa Substation (Maceió)

Dj Angelis Sanctus (aka Claudio M. ) na festa Substation (Maceió)

08/08/2009 Entrevista que dei a Jamile Pinheiro, para o site Rraurl (www.rraurl.com), sobre cultura do dj e música eletrônica, ainda em 08.11.01.

Cláudio Manoel Duarte é jornalista, fundador do Pragatecno e faz mestrado em Cibercultura na FACOM/UFBA. Vive atualmente em Salvador-BA, e vema gitando a cena nordestina com o coletivo Pragatecno nos últimos anos. Além do site, o Pragatecno mantém uma mailing list que traz infos da cena local, mostrando oque rola por lá. E pode crer que muito do que rola veio da iniciativa de Cláudio e dos guerreiros do Pragatecno de divulgar a eletrônica no Nordeste. Na entrevista ele fala desse trabalho, confira!

Por Jamile Pinheiro (www.rraurl.com)
> Antes ou depois da criacao do Pragatecno, havia/há pessoas com um propósito parecido no nordeste?
Acho que sempre houve. O problema as vezes tem sido a falta de conexão. Quando o Pragatecno surgiu em 98, nossa idéia era apenas estabelecer, em Maceió, uma rotina de pequenos eventos de música eletrônica, preenchendo uma lacuna existente na cidade. Mas a importância se deu também em outros níveis, inclusive regionalmente, porque passamos a ser o grupo pioneiro no Nordeste. Isso foi bacana porque nos deu maior visibilidade e nos tornou algo assim como uma referência, como uma forma de incentivo para que surgissem novos núcleos ou pessoas isoladas entrassem em contato com a gente. Fico orgulhoso de ver iniciativas como a do núcleo de pesquisa Cotonete, em Belém do Pará, ou o Undergroove, em Fortaleza. São focos de produção de cultura contemporânea, mesmo com um trabalho reduzido e difícil pelo isolamento de informação, no norte e nordeste, mas conectado com a cultural global, universal. Certamente em outras cidades, no norte-nordeste brasileiro, que é enorme, deve haver muito mais gente promovendo eventos legais e com conceitos sinceros, e gente inclusive produzido música eletrônica de qualidade. Descobrir e buscar uma conexão com esse povo deve ser uma batalha dos núcleos organizados, para incentivar o aprofundamento, a melhoria da cena na região. Mas a grande urgência que é colocada para os núcleos é a criação de uma rotina de eventos, mesmo de pequenos eventos, para que o público se forme e haja uma troca, uma circulação de informação. Não há cena sem rotina. No campo da troca de informação regional, a lista Pragatecnobrasil, mesmo com pouca circulação de informação, acredito que tem sido um canal para iniciar essa conexão (regional), já que não há cenas locais tão intensas no Norte-Nordeste.> Que DJs de fora (nacionais/internacionais) já se apresentaram em Salvador/Maceió?
Já passaram por aqui alguns djs de nome nacional, como Mau Mau, Renato Lopes, Marcos Morcerf, Felipe Venâncio, trazidos inclusive por casas comerciais como o Off Club, em festa internas ou fora do clube. E o dj Marky, com quem toquei, ao lado de dj Santana e Nortcle. O dj Marky foi trazido pela Faculdade FTC, com o apoio logístico do Pragatecno. O Pragatecno também promoveu eventos em parecerias com a TV Bahia e o grupo Tantas Coisas e pode trazer os djs Camilo Rocha (SP), o projeto Drumagick (SP), o Forma Noise (CE), Otto (SP), dj Arlequim (CE) no evento Solaris Eletrônico. Trouxemos outros djs como o Beto Farias e Ender, de Maceió, sempre com a idéia de intercâmbio e circulação de informação.

> Que importância você atribui ao movimento manguebeat, e a outras iniciativas que visem o híbrido cultura popular x música eletrônica?
O Manguebeat foi mesmo uma ruptura com a mesmice do pop no Brasil nos anos 90. Ele trazia uma proposta bem definida muito além do estouro das rádios, do sucesso. Apresentava um novo conceito estético, de experimentação, mesmo numa linguagem pop. Fez uma recuperção dos sons roots, dos nossos grooves populares baseado no ritmo do Maracatu pernambucano e associou esses grooves ao grooves eletrônicos e aos riffs de guitarras pós-modernas. Fez um som novo, “glocal” – um local globalizado. É pena que parou por aí, se fincou numa fórmula, abriu mão de novas pesquisas e paralizou. No campo específico do crossover, no cruzamento da música eletrônica e sons “brasileiros”, acho importante que esse tipo produção gere sínteses, de verdadeiros cruzamentos que dêem numa terceira estética, como resultado. Resultado de uma associação realmente híbrida, e não uma mera colagem de timbres de duas estéticas (acústica/elétrica com a eletrônica). Se não vira pura forçação de barra em prol de uma “música brasileira” – um conceito que pode ser uma faca de dois gumes, pois nem tudo que é nacional é bom, e nem tudo que é estrangeiro é bom. Temos que eleger essas experiências de hibridismos como experiências artísticas, independente do discurso nacionalista. Temos que eleger a arte de qualidade.

> Por que o underground?
O underground invoca a experimentação, novos valores estéticos, a música e a arte de uma froma geral não comercial. A arte não como produto de mero consumo e de fácil vendagem. É a veia onde corre a investida nas novidades, que motivam a aceleração de outras novidades e que faz com que a arte e outras manifestações não se marmorizem, não se transformarem em fórmulas cansativas. O underground, com seu caráter não mainstream, não comercial, alimenta as cenas alternativas, seja ela qual for – se não seremos meras vítimas das artes vendidas em prateleiras das lojas.

> Que você acha que falta para o nordeste efetivamente comecar a exportar talentos (ter DJs nordestinos tocando fora) e não apenas importar talentos (trazer DJs de fora)?
Falta a cena de outras regiões ficar atenta para a cena do norte-nordeste – porque não? -, que é inicial, de pouca história, de eventos de grandes dificuldades, mas com grupos, produtores e djs antenados com a produção contemporânea, afinal essa é uma cultura globalizada e não dependente de centros metropolitanos. É uma cultura rizomática. Por enquanto essa “parceria” (quando acontece) tem sido unilateral, e a troca não tem sido justa. É claro que a efervescência não tem acontecido no norte-nordeste, mas isso não significa que por essas bandas do País não haja pessoas, djs e produtores realmente dedicados, competentes, talentosos e comprometidos com a cultura da música eletrônica. Mas sou defensor da idéia de que, com a Internet à disposição, e nosso próprio talento, temos que trabalhar para implementar a nossa própria cena, o resto será resultado do trabalho e da paixão, sem buscar paternalismos nem ficar reclamando do que não veio fácil. Trabalhar com arte e cultura sempre, e principalmente no nosso País, é carregar um pouco da cruz, do peso de ser promoter disso tudo. Mas as dificuldades terminam fazendo parte e assumem importânica menor em relação aos prazeres que esse trabalho nos dá. A arte é uma das melhores manifestações da humanidade, não é mesmo?, e a música, essa aí, experimental, de qualidade é puro gozo, ainda mais quando associada a ela estão tantas outras manifestações legais. A cultura da música eletrônica é rica porque se constrói a partir da própria música, mas faz uma ampla conexão com tantas outras atividades (moda, comportamento, cibercultura, selos, djing, design, sites, softs, fanzines, produção videográfica…). Tem espaço para todos se incorporarem no que mais gosta. Isso é ótimo!

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