resenha/O ciberespaço, a cidade e a democracia eletrônica

O ciberespaço, a cidade e a democracia eletrônica

Cláudio Manoel Duarte de Souza

Resenha sobre o capítulos XIII – “O ciberespaço, a cidade e a democracia eletrônica” – de Pierre Lévy no livro CIBERCULTURA (Editora 34, São Paulo, 1999).

Neste capítulo, Pierre Lévy questiona em que níveis o desenvolvimento do ciberespaço afeta o espaço urbano.

O autor inicia sua discussão falando que as maiores adesões ao ciberespaço estão diretamente relacionadas aos espaços metropolitanos. E pergunta se o desenvolvimento desse ciberespaço ocasionaria, por outro lado, uma descentralização desses espaços metropolitanos. Se, enfim, o ciberespaço fomenta uma democracia, uma democracia eletrônica, valorizando as competências locais na troca de experiências.

Ele acredita que uma política voluntarista colocaria o ciberespaço a serviço de regiões menos desenvolvidas e serviria como um novo instrumental decisório para a população. “A verdadeira democracia consiste em encorajar (…) a expressão e a elaboração dos problemas das cidades pelos próprios cidadãos (…)”, afirma.

É quando Lévy enumera e discute alguns itens na relação cidade-ciberespaço. O primeiro deles é a analogia feita entre as comunidades virtuais e territoriais. Usando o exemplo da cidade virtual de Amsterdã, onde as informações sobre os serviços territoriais são colocados na net e também a comunidade encontra espaços de interatividade, Pierre Lévy afirma que são dois os motivos que mantém esse projeto: sensibilizar os dirigentes para as novas possibilidades das redes de conectividade; e dar “acesso a todos”, num esforço de compensação dos desequilíbrios entre ricos e pobres.

Lévy acha no entanto que essa relação cidade-ciberespaço é mal entendida. Às vezes funcionando apenas como uma versão representativa e não utilizando os reais recursos técnicos e de linguagem propiciados pelo ciberespaço. Cita o exemplo dos museus virtuais – “às vezes nada mais são do que catálogos ruins na Internet” – quando deveriam servir principalmente como espaços para maior interatividade e criação de obras coletivas.

No geral, o autor defende que o ciberespaço não pode ser mera duplicação das instituições (“formas institucionais”), sob o discurso de “acesso para todos”, mas valorizar e compartilhar a inteligência nas comunidades conectadas.

Ele também acredita que – eis um segundo item na relação cidade-ciberespaço – o ciberespaço não substitui (ou troca) as funções das cidades físicas pela telepresença. “Quanto mais nos comunicamos mais nos deslocamos”. Ele não nega a existência de teletrabalhos, mas o desenvolvimento das telecomunicações evolui paralelo a um desenvolvimento dos transportes físicos. “O ciberespaço é efetivamente um potente fator de desconcentração e de deslocalização, mas nem por isso elimina os centros”, afirma. Ele defende que, ao invés de uma efetiva substituição, o ciberespaço torna os intermediários obsoletos, por aumentar nossa capacidade de intervenção direta.

Um terceiro ponto levantado por Lévy é a assimilação do ciberespaço como aparelho que faz parte da infra-estrutura urbana clássica. Um equipamento que serviria como fonte de lucro, como uma “auto-estrada da informação”, assim como a tv a cabo. Essa idéia é equivocada, segundo o autor, pois mascara o verdadeiro conteúdo do ciberespaço: não um novo mercado ou uma nova infra-estrutura técnica, mas um mecanismo de interação, ou melhor uma forma de usar os mecanismo digitais já existentes. Um espaço para a comunicação transversal e hipertextual, a partir da interatividade e de uma nova forma de usar a tecnologia já existente. Pierre Lévy quer dizer que ao defenderem o ciberespaço como uma nova infra-estrutura (“auto-estrada da informação”) encobre-se aí o movimento social da cibercultura.

Mas de que forma se daria uma articulação entre a cidade e o ciberespaço? Esse é o quarto e último item observado pelo autor. Uma resposta. “Nem simples analogia, nem substituição, nem assimilação…”. Ele propõe pensar os dois espaços – qualitativamente diferentes – de forma articulada (“articulação”). O do território e o da inteligência coletiva. Acesso para todos, por exemplo, não deverá ser o acesso ao equipamento, mas a poderes decisórios. O ciberespaço deverá servir como eliminador da lentidão institucional, onde poderá haver colaboração coletiva e contínua dos problemas (da cidade) e sua solução também cooperativa e concreta. “Escolher a inteligência coletiva não requer apenas uma mudança de funcionamento da cidade (ou das instituições), implica também que se organizem funções do ciberespaço especialmente concebidas dentro dessa perspectiva”, defende. Lévy aponta algumas saídas, instâncias baseads principalmente na interatividade, como fóruns de avaliação e controle por parte da população.

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