resenha/O movimento social da cibercultura

O movimento social da cibercultura

Resenha sobre os capítulo VII – “O movimento social da cibercultura”- de Pierre Lévy no livro CIBERCULTURA (Editora 34, São Paulo, 1999).

Cláudio Manoel Duarte de Souza

Neste capítulo Lévy defende que a emergência do ciberespaço é fruto do movimento social, e esse movimento está baseado na interconexão, nas comunidades virtuais e na inteligência coletiva. Lévy quer provar que a utilização ou a criação/desenvolvimento da técnica é fruto do desejo. “O desejo é o motor”, afirma; que a técnica é também resultante de um movimento social – que a resignifica.

Ele cita o exemplo do veículo automotivo. Para ele, não é possível atribuir unicamente à indústria automotiva e às multinacionais do petróleo o impressionante desenvolvimento do automóvel individual neste século, inclusive com toda sua repercussão sobre o urbanismo (as cidades são projetadas baseadas em vias para o veículo): “o automóvel respondeu a uma imensa necessidade de autonomia e potência individual”. Lévy quer dizer com isso que – se o desejo é o motor – o desejo é anterior às formas econômicas e institucionais. O desejo – esse movimento abstrato que molda a máquina e/ou o seu uso – é a essência de uma forma, como defende – num paralelo – Gilbert Simondon1.

Para Simondon é a essência (novo valor diretriz) que motiva a criação do novo objeto técnico (máquina) a partir das conexões anteriores que teve uma de suas funções salientadas; e que são os esquemas mentais que se intercruzam e salientam um determinado esquema que vai não só anular outros como fazer surgir um esquema mental novo, uma nova essência. Simondon chama essa essência de o receptador dos dinamismo, por que é a essência que porta, que carrega a forma. “As formas não participam às formas – afirma ele – mas à essência”. Ele acredita que a essência, aquilo capaz de gerar o movimento, aquilo capaz de definir formas, aquilo capaz de gerar forças, é um sistema de energias que caminham, enquanto as formas são os sistemas de “atualidade”, do existente, do que é visível. Simondon coloca que não é a forma que induz, mas é essência. Poderíamos pensar o movimento social de Lévy como essa essência que molda.

Um segundo exemplo dado por Lévy para mostrar que o que “dispara” não reside na técnica é o uso dos correios, através da história: um sistema de comunicação – uma infra-estrutura, uma técnica – onde a sua essência original era, durante a China da Antigüidade, baseada na troca de informações governamentais usando-se os cavalos, como meios de transportes, para as informações que eram levadas de posto a posto. No século XVII, os correios sofrem uma alteração da técnica com distribuição de cartas ponto a ponto (pessoa a pessoa) resultante de um movimento social ligado intimamente à ascensão das idéias de liberdade de expressão: o “disparo” aconteceu pelas novas idéias (literatura, filosofia, cartas de amor) alterando o uso da (quase) mesma técnica. Para Lévy, uma infra-estrutura de comunicação pode ser investida por uma corrente cultural que vai, no mesmo movimento, transformar seu significado social e estimular sua evolução técnica e organizacional.

O autor quer propor, com esses dois exemplos, que o ciberespaço (técnicas) é fruto de um movimento social (corrente cultural) para que possamos pensar o mesmo “não como uma infra-estrutura técnica particular de telecomunicações, (mas) como uma certa forma de usar”, uma certa forma de apropriação das infra-estruturas existentes. Ele retoma os californianos em sua luta Computers for the people que queriam colocar a informática nas mãos dos cidadãos fora das grandes corporações: “o significado social da informática foi completamente transformado”.

Assim como a correspondência de pessoa a pessoa fez surgir o verdadeiro uso dos correios, o movimento social que vem desde os californianos dos anos 70 até o cidadão comum conectado, anônimo, nas redes telemáticas, dão o verdadeiro sentido ao ciberespaço como prática de comunicação interativa, muito além dos objetivos bélicos da origem dessas redes, particularmente da internet.

Pierre Lévy estabelece 3 bases que sustentam o que ele chama de movimento social da cibercultura: a interconexão, as comunidades virtuais e a inteligência coletiva.

A interconexão é a própria explicação até mesmo material, física, para a existência do ciberespaço: máquinas de comunicação de toda ordem interligadas criam uma ambiência – o próprio ciberespaço – para um segundo tipo de conexão: a das idéias, que por sua vez se concentram em grupos, tribos, em comunidades virtuais. “A interconexão constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras”, afirma Lévy”. “Tece um universo por contato”.

É óbvio é as comunidades virtuais se estabelecem a partir da primeira base, da interconexão. Estabelecida a partir da afinidade de interesses, essas comunidades processam a cooperação através da troca de informações que a consolidam enquanto grupo, independente de proximidades geográficas. Longe de serem frias, as relações sociais dessas comunidades através do ciberespaço são carregadas de emoções e até flames (discussões acaloradas, com ataques pessoais), marcando a presença sentimental de cada integrante, o que sugere que “nem a responsabilidade individual nem a opinião pública e seu julgamento desaparecem no ciberespaço”, como afirma Lévy. Informação e sentimento estão presentes numa comunidade virtual: ela não é irreal, é um coletivo que se utiliza de um suporte internacional para trocar informações e sedimentar sua opinião pública, gerando um movimento de idéias e, portanto, de intervenção social, dentro mesmo do ciberespaço e na cibercultura, já que a cibercultura – como afirma o autor – é a expressão da aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais e de poder, mas “sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns”, sobre processos abertos de cooperação, enfim. Lévy afirma que as comunidades virtuais são os motores do universo por contato.

Uma terceira base do movimento social da cibercultura é a inteligência coletiva. Trocar informações mais verticalizadas dentro de centros de interesse significa participar de um forum especializado, onde a circulação da informação (através da interconexão) aconteça de forma mais rápida e centrada (por meio das comunidades virtuais): um coletivo inteligente. A inteligência coletiva seria, portanto, um resultado, um resultante de uma pequena comunidade virtual temática (lista de discussão…) ou poderíamos pensá-la como a contribuição de idéias de toda a comunidade conectada ao ciberespaço. Em qualquer uma dessas esferas o problema que se coloca é o ordenamento das pequenas contribuições de informação? Como organizar – é preciso? – o mega-cérebro constituído de intervenções individuais, fragmentadas, fractais tendo em vista o estabelecimento de uma lógica inteligente – ou de uma inteligência lógica?

Fora da interconexão e de uma comunidade virtual, somos, cada um de nós, um elemento contribuinte com o inconsciente coletivo – um movimento etéreo, invisível, intuitivo e não cerebral. No ciberespaço – local de celebração do cérebro – nosso coletivo é (mais) consciente, inteligente e mais visível. Será? Essa massa de informação que imaginamos consistente é tão desordenada e caótica – sem lógicas, nem mesmo intuitivas – apoiadas em bits e tomadas desplugáveis que nossa contribuição factal é pouco ordenadora, direcionadora – mesmo nos sabendo inteligentes, cheios de opiniões, cerebrais e defensores em flames de nosso ponto de vista.

Que ponto de vista?

O ciberespaço e sua cultura caminham para todos os pólos. É uma massa de sons, textos, links perfeitos e quebrados, imagens fixas e em movimento – uma massa binária transportada num vai-e-vem por quem queira manipulá-la de um hard disk a outro ou transformá-la em algo novo, ou deletá-la. Falta aí um projeto? Um propósito? Uma quarta base que sustentasse um sentido para a interconexão, a comunidade virtual e inteligência coletiva?

Pierre Lévy acredita que a cibercultura é assim mesmo, sem projeto, sem objetivo nem conteúdo; onde nada que a compõe (comunidades virtuais, inteligência coletiva e interconexão) significa um programa político ou cultural no sentido clássico. “O programa da cibercultura é o universal sem totalidade”, defende ele. Por trás da cibercultura, por trás das comunidades virtuais, inteligência coletiva e interconexão estão como essências, como valores motrizes, a autonomia e a abertura para a alteridade – essas essências são, elas mesmas, o que determina a emergência do ciberespaço, da cibercultura.

1 Ver o capítulo II (“Evolución de la réalité tecnique ; élément, individu, ensemble”) da obra “Do Modo de Existência dos Objetos Técnicos”, de autoria de Gilbert Simondon.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.428 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: